A atual tendência da Pós-Graduação no Brasil dá prioridade à produção do conhecimento centralizando a dinâmica dos Programas em torno das linhas ou núcleos de pesquisa. Com essa nova prioridade busca-se superar as dificuldades derivadas da estrutura curricular organizada em áreas de concentração, imposta desde a legislação que regulamentou a Pós-Graduação no país na década de 60 (Pareceres 977/65 e 77/69 do CFE). Nesse sentido, a discussão e definição das linhas de pesquisa dos programas de Pós-Graduação adquirem particular significado na conjuntura atual de desenvolvimento da pesquisa educacional, uma vez que exigem a crítica a uma antiga forma e a busca de alternativas novas de organização das condições da produção do conhecimento.
No final dos anos 80 e começo desta década a maior parte dos Programas de Pós-Graduação em Educação apresenta iniciativas que modificam sua estrutura curricular, flexibilizando as exigências do modelo de curso organizado em áreas de concentração, estrutura esta que exigia numerosas disciplinas obrigatórias e abria espaço para a articulação de algumas disciplinas eletivas de domínio conexo.
As iniciativas deste período têm em comum a organização de grupos interdisciplinares e a ênfase na produção da pesquisa, que se torna no eixo central da organização curricular.
Essas iniciativas indicam um esgotamento do modelo implantado com base no Parecer CFE 977/65 e manifestam-se concretamente na superação da estrutura de áreas de concentração e sua substituição por uma nova organização curricular tendo como eixo de seu desenvolvimento as linhas de pesquisa e a proposta da articulação dos programas de Pós-Graduação e os cursos de graduação, tomando como estratégia básica esses núcleos de pesquisa.
As linhas de pesquisa, no nosso entender, referem-se fundamentalmente a campos problematizadores que exigem estudos aprofundados em torno dos quais se agrupam interesses comuns de investigadores de diversos campos do conhecimento. O termo pesquisa sugere problematização, processos de busca, qualificação de questões, dinâmica do conhecimento e construção de respostas científicas para os problemas e questões. Daí por que a definição das linhas de pesquisas deve privilegiar os campos problemáticos de investigação e configuração ampliando o alcance de outras definições como, por exemplo, a definição de "núcleos temáticos"
As linhas de pesquisa, no sentido das preferências acima apontadas, organizam-se com a finalidade de sistematizar a experiência de pesquisa, desenvolver novos projetos, pautar a construção de novos planos de estudo, captar e organizar recursos humanos institucionais e técnicos. Na organização dos Programas de Pós-Graduação, os núcleos servem de referência não apenas para articular interesses e centralizar recursos, mas também para definir prioridades na produção de novos conhecimentos, estabelecer critérios de seleção de alunos e professores e de aprovação de projetos de dissertações, teses e projetos de pesquisa dos docentes. A organização das linhas de pesquisas também propiciam a elaboração de investigações em grupo, integrando pesquisadores de diferentes níveis desde os "seniores" até alunos que desenvolvam pesquisas em nível de iniciação científica. Entretanto as linhas de pesquisa, embora claramente definidas e suficientemente justificadas, não são a condição principal necessária para a geração de novos conhecimentos. O desenvolvimento de linhas de pesquisa exige necessariamente a formação de grupos de pesquisa. Não é passível de ser pensada a existência concreta de uma linha de pesquisa sem um grupo de pesquisadores articulados, motivados e atuantes que abordem sistematicamente a problemática dessa linha. A organização de um grupo demanda necessariamente a determinação de uma infra-estrutura mínima de espaço e de condições materiais adequadas que congreguem recursos bibliográficos, equipamentos de de informática, tempo de dedicação e a organização de tarefas mínimas distribuídas entre os membros participantes desses núcleos.
Dentre as tarefas básicas dos grupos e núcleos de pesquisas estão as referidas ao acompanhamento cuidadoso e permanentemente atualizado da produção científica sobre a problemática própria da linha de pesquisa e sobre a evolução do conhecimento nos campos do saber que fazem referência à compreensão dessa problemática.
Esta dinâmica institucional dos grupos de pesquisa deve necessariamente ser socializada e estar em permanente permuta e atualização de sua produção com outros grupos afins e correlatos. Esse acompanhamento deve motivar a elaboração de boletins periódicos, atualização de referências bibliográficas, sistematização de fontes e estudos que dêem conta de diversos estados da arte sobre os temas referenciais. Seu desenvolvimento depende também do estabelecimento de formas permanentes de socialização dos resultados (boletins, catálogos, periódicos, coletâneas, etc.), a realização de estudos comparados sobre problemas comuns, a organização de eventos, atividades articuladas em torno dessas problemáticas e a assinatura e realização de convênios com instituições ou grupos afins sediados em outras instituições nacionais e internacionais.
As linhas de pesquisa não podem ser entendidas como categorias estanques, ou subcategorias temáticas das antigas áreas de concentração. O sentido da discussão, no âmbito de algumas associações nacionais como a ANPED (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação) aponta para a compreensão das linhas de pesquisa como eixos que articulam interesses de diversos pesquisadores, propiciando o trabalho interdisciplinar, a contribuição e o concurso de diversas visões, diferentes abordagens teórico-metodológicas e o concurso de diversas tradições epistemológicas. Desdobra-se dessa compreensão a possibilidade de integrar num mesmo grupo um corpo de pesquisadores pertencentes a diversos departamentos de uma mesma unidade acadêmica, ou mesmo de outras unidades, em torno de um problema ou grupo de problemas cuja complexidade exige a contribuição do trabalho grupal e o domínio de diversas abordagens teórico-metodológicas. Nesse sentido, a organização de núcleos ou grupos de pesquisa apresenta-se como uma possível solução para o trabalho individual e isolado que tem caracterizado a produção da pesquisa nos cursos de Pós-Graduação, quando estruturados dentro do modelo de áreas de concentração. O trabalho solitário tem gerado duplicidade de esforços, desconhecimento de outros trabalhos semelhantes e desinformação entre os pesquisadores de uma mesma unidade ou comunidade científica. Às vezes, revisões bibliográficas, elaboração de estados da arte e mesmo pesquisas são repetidas ou justapostas, em razão dessa desinformação.