Diálogo e Existência no Pensamento de Martin Buber

Diálogo e Existência no Pensamento de Martin Buber

 

Newton Aquiles von Zuben (*)

 

O estudo da obra de Buber, por ocasião uma Semana de Estudos consagrada à Fenomenologia e Psicologia não deixa de sugerir observações concernentes à questão das duas ordens de discurso que são o discurso científico e o discurso filosófico. Trata-se de uma questão interessante quando a investigação se volta para o sentido do humano em sua concretude e historicidade como ser de relações e como um dos suportes da transformação da realidade.

Embora a finalidade primeira deste estudo se volte para uma parte da obra de M. Buber. mais precisamente sua Antropologia Filosófica, não se deve passar ao longe desta questão da articulação dos dois discursos; pelo menos que seja permitido indicar algumas pistas a serem reexaminadas posteriormente de modo mais minucioso. Mesmo que muitos autores contemporâneos tenham consagrado longos estudos a esta questão, creio que ela ainda apresenta aspectos a serem estudados. Deve-se, antes de tudo. deixar clara a intenção destas breves observações: determinar o "lugar" do discurso filosófico em relação ao discurso científico ou em relação à crescente presença do objetivismo deste discurso e sua pretensão em monopolizar todo discurso verdadeiro. Faz-se necessário precisar os limites do discurso científico e o papel do discurso filosófico de modo a arbitrar corretamente o conflito entre filosofia do homem e ciências humanas. Não se trata de defender uma filosofia da subjetividade ou da consciência como fonte de toda realidade ou como transparência de si a si-mesma, da consciência como posse e autodeterminação imediata de si mesma, como representação ou como constituição do real. Esta pretensão já foi denunciada pelos mestres da suspeita: Marx, com a práxis histórica; Nietzsche, com a vontade de poder, e Freud, com o inconsciente.

Não deixa de ser intrigante importar-se com a questão quem é o homem? Afinal, o homem, atualmente, ainda encontra sentido em interrogar-se sobre si mesmo, sobre o sentido de sua existência? Engolfado no mundo da eficácia produtiva, dos interesses imediatos, do consumo desenfreado, da luta pela sobrevivência, diante da fome, da opressão, o homem não se sente mais capaz de mistério. Aturdido pelo gigantesco volume de conhecimentos acumulados não vê senão uma conspiração em eliminar a sua vontade de silêncio para poder encontrar-se consigo mesmo. O pensamento calculante do homem, contemporâneo não permite brechas que lhe propiciem uma visão, embora ofuscada e fugaz, de suas limitações trágicas. A solicitação excessiva do meio ambiente leva à quase-impossibilidade de um contato consigo mesmo através da reflexão. O homem já encontra prontas todas as fórmulas e receitas. O inexorável fluxo das teorias o faz capitular negando-lhe qualquer criatividade e sufocando sua imaginação. As questões essenciais são aquelas meramente utilitárias. Além disso, no campo das ciências humanas, o sentido do humano vem sofrendo constante e sistemática pulverização, a ponto de se eliminar o "humano" nesta infindável setorização a que vem sendo submetido pela análise científica. O humano não é mera soma de setores cujos contornos e regras particulares são definidas por diferentes ciências. E mais, em nome de uma pretensa supremacia de certa racionalidade, eliminam-se dimensões não menos reais da existência humana.

A pista para um possível encaminhamento do problema do significado dos discursos sobre o homem não está na eliminação de um dos discursos em confronto. É estéril qualquer tentativa de um discurso em afirmar sua própria importância limitando-se a negar a existência e a validade do outro. À filosofia cabe denunciar serenamente a pretensão totalitária da explicação objetivista.. Esta , dogmática em sua posição, rejeita qualquer afirmação que seja suscetível de verificação. Para esta tendência cientificista qualquer afirmação que não possa ser declarada verdadeira ou falsa é classificada como metafísica. À filosofia cabe denunciar a redução do humano a simples objeto de investigação. Ao contrário, "o homem se define, diz Merleau-Ponty, em oposição à pedra, que é o que é, como o lugar de uma inquietação, como o esforço constante por se recuperar e consequentemente pela recusa em se limitar a qualquer uma de suas determinações".

Convêm, então, esclarecer o sentido da reflexão filosófica no âmbito de uma antropologia contemporânea. Isso se tornou difícil, uma vez que o acervo dos conhecimentos e dados fornecidos pelas ciências humanas reduziu o campo e a jurisdição da filosofia. Por outro lado, o desenvolvimento das ciências humanas apresenta uma série de questões que exigem uma nova reflexão filosófica, questões que, muitas vezes, não podem ser respondidas por estas ciências e que estas necessitam para se fundarem de modo válido.

"Creio que o ponto de junção entre ciências humanas e filosofia é a preocupação de reencontrar em nós mesmos aquela parte, aquele aspecto que não pode ser objeto de ciência. Não podemos circunscrever as ciências humanas senão através de uma tomada de consciência desse fundo de existência, fundamento esse que alguns denominaram 'o vivido', seja na acepção bergsoniana, seja no sentido da fenomenologia ou do existencialismo. Trata-se de reencontrar aquilo que em nós é sujeito, aquilo que faz de nós um sujeito, aquele que diz 'eu', aquele que está em relação não só com 'ele' ou com um 'isto' mas principalmente com um 'tu'". (Ricoeur,P.-Interrogation philosophique et engagement. Em Pourquoi la Philosophie. Pag. 16-17).

De sua parte Jolif apresenta de modo sucinto a interdependência dos dois discursos quando afirma: "na ordem da fundação, as ciências humanas têm necessidade da filosofia e essa, por sua vez, na ordem da concretização,. tem necessidade das ciências".( Comprendre l'homme Pag.125.)

Heidegger, no seu clássico Kant e o problema da metafísica, nos resume de modo desconcertante o âmago da questão: "Nenhuma época acumulou conhecimentos tão numerosos e tão diversos sobre o homem como a. nossa. Nenhuma época conseguiu apresentar seu saber acerca do homem sob uma forma que nos afete tanto. Nenhuma época conseguiu tornar esse saber tão facilmente acessível. Mas também nenhuma outra época soube menos o que é o homem".(pag. 266 da tradução francesa).

Heidegger se referia ao caráter fragmentário dos conhecimentos sobre o homem e à impossibilidade das ciências em alcançar a totalidade da existência humana: " as diferentes condutas - social, psíquica, lingüística etc. - às quais se aplica o conhecimento das disciplinas científicas encontram sua integração na existência do homem que as vive, e essa unidade existencial é acessível tão-somente à reflexão filosófica". (Canclini,N.G.-O sentido dialético do humano. Em revistqa Paz e Terra. No. 9, pag. 163).

Para este autor, "a filosofia tem uma função insubstituível com relação ao problema do sentido. As ciências apenas descrevem a realidade humana; a filosofia é a reflexão sobre o que o homem pode fazer com essa realidade. As ciências revelam os condicionamentos - sociais, psíquicos - que operam sobre o homem, o que as estruturas nas quais está imerso fazem com ele; a filosofia mostra como o homem assume estes condicionamentos e essas estruturas, como empresta um sentido à sua existência por meio deles. Por isso limitar-se a uma análise exclusivamente científica - que só analise a realidade existente - pode levar a uma concepção estática do humano. Pelo contrário, a filosofia - na medida em que não considera o homem apenas no que ele é, mas no que pode ser - contribui para promover seu desenvolvimento". (Canclini. Idem pag. 163).

Portanto as articulações entre as duas ordens de discurso, o científico e o filosófico, devem ser entendidas como um movimento dialético. Estes dois discursos não se assemelham nem se justapõem. Dialetizá-los significa articulá-los na sua diferença. O discurso científico serve de diagnóstico ao discurso filosófico. A análise reflexiva, incapaz de atingir vários aspectos da existência humana através de experiência direta busca no conhecimento científico, objetivo, o "signum", o "indicador" para a descoberta de estruturas vividas subjetivamente.

O âmbito e a finalidade do presente estudo não permite uma análise mais ampla e detalhada desta questão que não deixa de preocupar a antropologia atual.

Martin Buber tem exercido notável influência em vários campos do saber, não só pela sua intensa atuação pessoal em muitos empreendimentos, mas sobretudo pela sua vasta obra. Sem pretender construir um sistema teórico, fruto de exaustivas elaborações meramente intelectuais, Martin Buber marcou sua obra por uma constante e incansável procura: o sentido do humano a fim de resgatar a dignidade da responsabilidade que lhe é inerente na construção de um mundo mais humano. Buber foi movido por uma grande esperança no humano. Em sua autobiografia ele próprio qualificou-se de "atípico", exatamente por esta recusa em estabelecer sistemas e doutrinas. Sua tarefa era entendida como um esforço de mostrar aos contemporâneos a realidade na qual deveriam tecer sua existência. A peculiaridade das reflexões de Buber, claramente exposta em muitas de suas obras, é que ele pode sentir a parte de sua experiência concreta que é universal e projetar este conhecimento acerca das relações inter-humanas de modo a falar, na realidade, diretamente com seu leitor. E' como se, muitas vezes, ele nos dissesse: "esta é minha experiência, reflita um pouco sobre isso e verá que essa pode também ser sua experiência". Embora seja um filósofo ele foi criticado por não apresentar proposições filosóficas e não tentar verificá-las ou validá-las através de provas. Em vez disso, Buber insistiu sempre em travar uma conversação , um diálogo com seu leitor. Para este cabe ver se suas próprias experiências vividas encontram ressonância com as experiências pessoais relatadas por Buber. E esta ressonância seria a prova da validade das idéias que tentou transmitir a seu "interlocutor". "Tomo alguém pela mão e conduzo até a janela. Abro-a e aponto para fora. Não tenho ensinamento algum, mas conduzo um diálogo" (Elementos autobiográficos). Precisamente, é o diálogo a categoria existencial por excelência sobre a qual Buber busca fundar suas reflexões. A sua proposta de se compreender a realidade humana através do prisma do "dialógico" é um exemplo do vínculo entre a experiência vivida e a reflexão, entre o pensamento e a ação. A sua reflexão articula-se duplamente com a experiência concreta: na sua origem e em seu projeto. A reflexão emerge de uma experiência vivida e se lança, para buscar sua eficácia, para um alcance político e social na medida em que o diálogo é o eixo da proposta de formação de comunidades concretas entre os homens. Assim o diálogo deixa de ser puro conceito construído no plano abstrato e passa a descrever experiências vividas.

Na história da Antropologia Filosófica a obra de Buber representa a recuperação do indivíduo enquanto pessoa. Para ele não tem sentido a pretensão da consciência em se erigir como ponto de partida e centro da investigação filosófica. Deste modo rejeita todo idealismo ao reafirmar claramente a abertura ao outro na relação inter-humana. Para além do individualismo inconseqüente e do coletivismo totalitário, Buber erige a relação dialógica como o ponto de partida para a procura do sentido da existência humana, e, a nível prático, para a construção de uma comunidade onde o princípio ético, ao lado do princípio político, encontre o lugar de sua realização.

As reflexões de Buber sobre as relações sociais e inter-humanas baseadas nas atitudes Eu-Isso e Eu-Tu sugerem ponto de apoio valioso para a consideração, através de novo prisma, das relações dê. terapia. Repito, tendo emergido de situações pessoais concretas vividas nos mais diversos contextos do mundo cotidiano, esta linha teórica sobre as relações do sujeito humano com o outro, com o mundo e com o absoluto, não se limita ao nível teórico, abstrato, mas está voltado para o concreto. Cabe aqui notar a superação do primado da ciência sobre o vivido. Na verdade, Buber recupera o sentido da experiência concreta, do vivido. Sem dúvida, na relação terapêutica o conhecimento científico é, diríamos, não só necessário mas também indispensável, mas sua presença no "projeto terapêutica" não deve impor-se em detrimento da própria experiência de dualidade de pessoas que se relacionam mutuamente no diálogo. O encontro, o instante da terapia não acontece entre um cientista e seu objeto de investigação, mero vínculo Eu-Isso, em terceira pessoa, mas, ao contrário, realiza-se entre duas pessoas mediadas pela relação de ajuda.

Neste quadro pode-se aprender a importância da filosofia do diálogo, esteio primordial para a idéia de comunidade que deverá ser constituída ou construída a partir de novo tipo de relação entre os homens. Buber a denominou "dialógica" ou relação Eu-Tu.

Ele parte de um postulado primeiro, que podemos chamar de "situação cotidiana", significando, com isso, que cada homem, pelo simples fato de existir, defronta-se com o mundo estabelecendo assim um vínculo de correlação que irá caracterizar seu próprio modo de ser.

O homem é, assim, um ser de relações. Ao defrontar-se com o mundo atualiza-se, segundo Buber, pelas "palavras-princípio" que o Eu pode proferir. O homem é capaz de múltiplas relações, que podem, no entanto, reduzir-se basicamente a duas atitudes externadas pelas duas palavras-princípio: Eu-Tu e Eu-Isso. Buber se interessa pelo mundo enquanto correlato na relação dialética Eu-mundo. Do mesmo modo, não há Eu em si, apenas o Eu de uma das duas palavras-princípio.

A "situação cotidiana" nada mais é do que a relação que une o homem ao mundo ao ser proferida uma ou outra palavra-princípio. A relação não é uma propriedade do homem nas um evento que acontece entre o homem e o que lhe está em face. Tanto o Eu quanto o mundo são caracterizados pela palavra-princípio proferida. Temos, então, de um lado, a abertura essencial do Eu e de outro a doação imediata do ser. As palavras-princípio, por seu conteúdo e sua intencionalidade, são verdadeiros princípios da existência humana. Estes princípios que orientam e sustentam a existência, princípios existenciais e "falados", proferidos, são duas formas de relação bipolar, duas intencionalidades dinâmicas. Trata-se de duas atitudes fundamentais e não de duas estruturas epistemológicas. A palavra-princípio, fonte de todas as relações, é dada na evidência de uma atitude.

A dupla atitude que o homem tem diante do mundo graças à dupla palavra-princípio, Eu-Tu e Eu-Isso, significam dois mundos: o mundo da relação - o Eu-Tu, e o chamado mundo do Isso - da atitude cognoscitiva, objetivante. Estas duas atitudes são radicalmente distintas, segundo Buber. Por serem distintas, o homem toma uma ou outra atitude alternadamente. Eu-Tu e Eu-Isso não são conceitos que exprimem algo externo, mas significam relações. Como vimos, Eu-Tu é a relação ontológica, esteio para a existência dialógica, para o diálogo; Eu-Isso instaura o vínculo objetivante, lugar e suporte da experimentação, do conhecimento, da utilização, "o reino dos verbos transitivos", como chama Buber. A base da diferença entre as duas atitudes está na noção de totalidade que caracteriza a relação ontológica Eu-Tu. "A palavra-princípio Eu-Tu só pode ser proferida pelo ser em sua totalidade", afirma Buber. As palavras-princípio instauram dois modos de ser relacional e dois tipos de mundo. Ao Eu da palavra-princípio Eu-Tu chama "pessoa", e ao Eu da palavra-princípio Eu-Isso, Buber chama "egótico". O pólo correlativo ao Er,í-Pessoa é um Tu; e o pólo corretivo ao Eu-Egótico é um Isso ou Ele, Ela. Embora Buber empregue o pronome pessoal Tu, este não se refere necessariamente a pessoas, assim como o Isso da relação Eu-Isso não se refere unicamente a coisas ou objetos. Ambos, Tu e Isso podem referir-se a pessoas, seres da natureza, objetos de arte e mesmo Deus. Podemos perceber que Eu-Tu e Eu-Isso ultrapassam ou ao menos se distinguem de nosso modo ordinário de abordar as coisas e as pessoas dirigindo nossa atenção não sobre seres ou objetos individuais ou sobre as suas conexões causais mas sobre relações de outro tipo que se estabelecem entre o homem e os seres que o envolvem no mundo cotidiano, no seu universo cultural individual ou social. Justamente, para Buber, a esfera primordial, quando se trata de relações humanas, é a esfera do "entre", lugar primordial e existencial onde acontecem os eventos autenticamente inter-humanos.

A atitude do homem em face do mundo se manifesta com uma palavra. Esta palavra, uma vez proferida, traz o homem à existência. Ela é realmente um princípio de existência. Não é simples função do Eu. Ela é essencialmente relação, seja a relação mais intensa que Buber denominou Beziehung, seja o relacionamento cognoscitivo ou do tipo Sujeito-Objeto que Buber denominou Verhältnis . Pela palavra o Eu se projeta ao outro que lhe está defronte.

Um dos pontos de partida da meditação buberiana é uma reflexão sobre a linguagem. Buber não se interessa, no entanto, à maneira do cientista, pela estrutura lógica e abstrata da linguagem. Sua análise se restringe antes à linguagem como palavra proferida, a palavra como invocação do outro, aquela que gera resposta, aquela que se apresenta como manifestação de sua situação atual entre dois ou mais homens relacionados entre si por peculiar relação de reciprocidade. A palavra que, pela intencionalidade que a anima, é um dos componentes da estrutura da relação, do diálogo, esteio e atualização concreta do encontro inter-humano.

Para melhor se entender o sentido da palavra "atitude" que se concretiza nas palavras-princípio convém apreender o sentido do "conhecimento" para Buber. Para este, na base da dualidade das atitudes está a "intuição" denominada "contemplação" - Schauung - que precede o conhecimento objetivo. Este é posterior à presença do ser que se oferece. Enquanto consideração, análise de um objeto, o conhecimento é posterior à intuição da presença do ser na relação originária Eu-Tu. "A palavra conhecer, diz Buber, é empregada em dois sentidos: primeiro, na linguagem comum conhecer significa considerar a coisa como objeto. Tal conhecimento se funda no relacionamento entre sujeito e objeto; em segundo lugar, outro sentido é atribuído à palavra conhecer, como o que lemos na frase bíblica: 'Adão conheceu Eva'. Aqui, entende-se a relação de ser para ser, na qual acontece um efetivo conhecer de Eu e Tu e não de um sujeito que conhece um objeto" (Buber, Nachlese, 1966). A relação Eu-Tu seria uma relação ontológica e existencial que precederia o relacionamento cognoscitivo. Poderia mesmo afirmar que antes de conhecer a vivência o homem a vive e a relação objetivante é um empobrecimento da densidade vivencial originária. A contemplação no face a face não é uma intuição cognoscitiva mas doação de um Tu a um Eu. Este se realiza na, relação a um Tu.

A relação Eu-Tu é anterior ao Eu; a atitude Eu-Isso, de experimentação e de utilização como denomina Buber, nasce de um ajuntamento do Eu e do Isso. A relação Eu-Tu é imediata: aí acontece a recíproca "presentificação do Eu e do Tu". No relacionamento Eu-Isso, se o Isso está na presença do Sujeito-Eu, não podemos dizer que o Eu está na presença do Isso. "0 homem transformado, diz Buber, em Eu que pronuncia o Eu-Isso coloca-se diante das coisas em vez de confrontar-se com elas no fluxo da ação recíproca". Na relação Eu-Tu o Eu é determinado pela presença do outro que está em sua presença como Tu. A alteridade é constitutiva do ser pessoal. Talvez esteja aí a base da afirmação de que o homem é um ser social.

Não se deve entender a ação essencial e recíproca que acontece na relação Eu-Tu em termos de sentimentos. Tal ação imediata, direta, gratuita, por assim dizer, uma vez que acontece na situação Eu-Tu que é gratuita, une dois seres humanos, acontece entre os dois; ela é essencialmente recíproca. Os sentimentos são, ao contrário, possuídos pelo Eu. Eles acompanham a relação. O amor acontece entre um Eu e um Tu. Os sentimentos acompanham o amor, Este não se identifica com aqueles.

Um dos pontos centrais da antropologia de Buber é sem dúvida a questão do outro como Tu. Este é para Buber o fundamento ontológico e existencial de todas as outras realidades e ações humanas. O Tu é o fundamento do "nós" e este o esteio da comunidade.

Buber distingue quatro aspectos essenciais e indispensáveis a qualquer relação Eu-Tu, aspectos a que de algum modo já nos referimos. São eles: a reciprocidade, a presença, a imediatez e a responsabilidade.

A reciprocidade indica, como o próprio termo exprime, a existência de uma dupla ação mútua entre os parceiros da relação. "A árvore não é uma impressão, afirma Buber, um jogo de minha representação ou um valor emotivo, Ela se apresenta 'em pessoa' diante de mim e tem algo a ver comigo, e eu, se bem que de modo diferente, tenho algo a ver com ela. Que ninguém tente debilitar o sentido da relação: 'relação é reciprocidade ." (Eu e Tu).

A relação Eu-Tu não se reduz à esfera humana, ou melhor, o Tu, como vimos, não é necessariamente um ser humano. Porém, é na esfera das relações humanas que a reciprocidade pode atingir seu grau mais elevado. Na relação dialógica a palavra da invocação recebe a resposta. A reciprocidade rompe então o imanentismo do Eu lançando-o no encontro face a face. É aí que o Eu e o Tu se presentificam. A presença é justamente o momento, o instante da reciprocidade. Esta presença recíproca é a garantia da alteridade preservada.

O Tu não pode ser função do Eu, como se fora mera coisa determinável na trama da causalidade universal; o Tu é encontrado em sua alteridade, ele é confirmado como outro.

Além disso, nenhum meio se interpõe entre os parceiros do encontro. A relação é imediata, direta. Nenhum esquema conceitual ou idéias prévias, nenhuma imagem, nem fins nem antecipações. Na atitude Eu-Tu dialógica não me relaciono com o outro através de sua função social. "Todo meio é obstáculo", diz Buber. O Tu se dá na presença e não na representação.

Por se tratar de uma ação recíproca entre os presentes no diálogo, esta relação é também responsabilidade. Buber situa o problema da responsabilidade imediatamente ao nível da vida vivida. Ele não a aborda ao nível de uma ética autônoma, de um "dever" abstrato. Na realidade, a vida humana é vivida em situações concretas de relações inter-humanas. A verdadeira responsabilidade se encontra onde há possibilidade de resposta. A responsabilidade se torna então o nome ético da reciprocidade, uma vez que a resposta autêntica se realiza em encontros inter-humanos no domínio da existência em comum.

"As palavras de nossa resposta são pronunciadas na linguagem da ação. O que dizemos por nosso . ser é que nós nos entregamos à situação, que entramos na situação, nesta situação que vem de nos interpelar." ( Buber, M.- Eu e Tu.)

Por outro lado, há diversos modos de existência caracterizada pela atitude Eu-Isso. Buber os resume em dois conceitos: experiência - Erfahrung - e a utilização ou uso - Gebrauchen. A experiência estabelece um contato na estrutura do relacionamento, de certo modo unidirecional entre um Eu, ser egótico, e um objeto manipulável. Este relacionamento se caracteriza pela coerência no espaço e no tempo; ele é coordenável e submetido à ordem temporal. Ao tomar a atitude Eu-Isso o Eu não se volta para o outro, mas encerra em si toda a iniciativa da ação. "Eu considero uma árvore", diz Buber. Ela é meu objeto, um Isso delimitado por outros objetos, uma soma de características externas. O Eu da experiência e da utilização não participa do mundo; a experiência se realiza ,,nele" e não entre ele e o mundo. O homem que após a relação dialógica se tornou em Ele é um congregado de qualidades, não vejo nele o outro.

O mundo do Isso, ordenado e coerente, é indispensável para a existência humana; ele é o lugar-comum onde nós nos entendemos com os outros. Ele é parte integrante do nosso Lebenswelt. Buber o chama de reino dos verbos transitivos. Embora essencial para a existência humana, não pode, pensa Buber, ser considerado o sustentáculo ontológico do inter-humano. A afirmação taxativa, como vimos há pouco, do primado da relação Eu-Tu, não deve levar à conclusão de que a atitude Eu-Isso seja algo de negativo. A diferença entre as atitudes não é ética. Não se deve distingui-las em termos de autenticidade e inautenticidade. Enquanto humanas as duas são autênticas. Para Buber o Eu-Isso é uma das atitudes do homem em face do mundo graças à qual podemos compreender todas as aquisições científicas e técnicas da humanidade. Em si o Eu-Isso não é um mal; ele se torna fonte do mal na medida em que o homem se deixa subjugar por esta atitude, movido pelo interesse de pautar todos os valores de sua existência unicamente pelos valores inerentes a esta atitude, deixando enfim fenecer o poder de decisão, de responsabilidade de disponibilidade para o encontro com o outro.

"Se o homem não pode viver sem o isso, diz Buber, não se pode esquecer que aquele que vive só com o isso não é homem." (Eu e Tu. pag. 39. Ed.Cortes e Moraes).

Para Buber a existência humana é tecida pela alternância das duas atitudes. Uma, mais duradoura e mais estável, dando ao homem sensação de segurança, e a outra - Eu-Tu - mais fugaz e mais rara e difícil. Não há duas espécies de homens, mas duas possibilidades permanentes de ser homem. Homem algum é puramente pessoa e homem algum é puramente egótico.

"Há homens, afirma Buber, cuja dimensão de pessoa é tão preponderante que se podem chamar de pessoas, e outros cuja dimensão de egotismo é tão preponderante que se pode lhes atribuir o nome de egóticos. Entre aqueles e estes se desenrola a verdadeira história."(Eu e Tu).

Não podemos deixar de externar certa apreensão diante da ênfase com que Buber distingue as duas atitudes. Na realidade, ele emprega termos um tanto radicais quando fala da transformação do Tu em Isso ou Ele; ele se refere à "grande melancolia de nosso destino". Em outra parte ele afirma: "Por mais exclusiva que tenha sido a sua presença na relação imediata, tão logo tenha esta deixado de atuar ou tenha sido impregnada por meios, o tu se torna um objeto entre objetos, talvez o mais nobre, mas ainda um deles, submisso à medida e à limitação". "Cada. tu, prosseglie Buber, é condenado pela própria natureza, a tornar-se uma coisa, ou então, a sempre retornar à coisidade." ( Eu e Tu ).

Segundo Buber, a pessoa que encontrei na relação Eu-Tu., após os breves instantes desta relação, já não é uma pessoa, mas simples objeto, um Ele. Podemos notar, em toda a obra de Buber, uma extrema atenção à experiência cotidiana, vivida. Ele mesmo foi um exemplo deste vínculo estreito entre pensamento e ação. Agora, se nós nos voltarmos à nossa experiência cotidiana concreta de nossas relações com nossos semelhantes, vemos que as coisas não se passam exatamente do modo tal qual descreveu Buber. Na verdade,, existem atitudes que, embora não sejam autênticas relações Eu-Tu, nem por isso são meramente Eu-Isso. Se, por acaso, numa relação inter-humana não se estabelece uma relação Eu-Tu, meu parceiro deve ser necessariamente considerado um objeto? Talvez seja este o ponto mais crítico da versão de Eu e Tu de 1923. aliás nunca revista pelo autor em suas sucessivas edições. Em obras posteriores, o próprio Buber parece ter amenizado esta dualidade com aparência maniqueista dos dois mundos e das duas atitudes.

O dialógico acontece "entre" as pessoas envolvidas. Distingue-se portanto do psicológico na medida em que este acontece no interior de cada indivíduo. O sentido do diálogo está neste intercâmbio, na "inter-ação", no intervalo das duas palavras.

No plano antropológico ou existencial o "encontro" se dá, segundo Buber, através de dois movimentos: o distanciamento e a relação. Pelo distanciamento o homem coloca-se face a face com o outro, reconhecendo sua alteridade como outro, independente do eu. Pela relação, acontece a presentificação do outro, em pessoa e não na mera representação. "O movimento básico dialágico consiste no voltar-se-para-o-outro. Aparentemente trata-se de algo que acontece a toda hora, algo banal; quando olhamos para alguém, quando lhe dirigimos a palavra, é com um movimento natural do corpo que a ele nos voltamos; porém, na medida do necessário, quando a ele dirigimos nossa atenção, fazemo-lo também com a alma". (Diálogo . Em do diálogo e do dialógico. Pag. 56)

Em seguida Buber nos observa claramente que " constitui um erro grotesco a noção do homem moderno que o voltar-se-para-o-outro seja um sentimentalismo que não está de acordo com a densidade compacta da vida atual e sua afirmação que o voltar-se-para-o-outro seja impraticável no tumulto desta vida é apenas a confissão mascarada da fraqueza de sua própria iniciativa diante da situação da época". (idem pag. 57).

Oposto a este movimento dialógico, o movimento monológico não consiste, afirma Buber, no desviar-se-do-outro, mas no dobrar-se-em-si-mesmo. "Chamo de dobrar-se-em.si-mesmo o retrair-se' do homem diante da aceitação, na essência do seu ser, de uma outra pessoa na sua singularidade, singularidade que não pode absolutamente ser inscrita. no círculo do próprio ser e que contudo toca e emociona substancialmente a nossa alma, mas que de forma alguma se lhe torna imanente; denomino dobrar-se-em-si-mesmo a admissão da existência do Outro somente sob a forma de vivência própria, somente como 'uma parte do meu. eu'." (idem pag. 58).

O dialógico é o desdobramento do inter-humano que se dá no face a face e na aceitação mútuas. Porém a relação inter-humana não acontece sem dificuldades.

Tais relações inter-humanas ocorrem nas dualidades que Buber denominou, de um lado, a dualidade do ser e da aparência e, de outro, da imposição e da abertura.

"Nós podemos distinguir, diz Buber, duas espécies de existência humana. Uma delas pode ser designada como a vida a partir do ser, a vida determinada por aquilo que se é; a outra, como a vida a partir da imagem, uma vida determinada pelo que se quer parecer. Em geral, estas duas espécies apresentam-se sob a forma de uma mistura: deve ter havido poucos homens inteiramente independentes da impressão que causavam aos outros, mas provavelmente será difícil encontrar alguém que se guie exclusivamente pela Impressão que causa." (Elementos do Interhumano em Do diálogo e do dialógico. Pag.141. Ed.Perspectiva S.P.)

Para que surja o diálogo autêntico é necessário que cada parceiro veja o outro como ele é. Este ver implica um conhecimento íntimo do fato de que ele é outro, essencialmente outro o que não eu. Mais que uma compreensão objetiva de algo, o conhecimento íntimo seria uma compreensão "transjetiva" de alguém. Quanto a isso Eu e Tu já definiu claramente as diferenças. Na relação Eu-Tu não conheço o outro do mesmo modo que tomo conhecimento de um objeto. Assim, na relação terapêutica, o que conta não é o método ao qual toda a situação deve se submeter em vista de seu esclarecimento. O que conta é o terapeuta de um lado e o paciente de outro. Embora o médico não possa desvencilhar-se completamente de toda tipologia, ele deve reconhecer que em certos momentos a pessoa, em sua unicidade, do paciente se defronta no face a face com a pessoa, única, do médico. Mesmo que não possa renunciar a métodos e tipologias, deve o médico, no entanto, saber em que momentos colocá-los de lado e tornar-se presente no encontro. Este tornar-se presente é a própria confirmação mútua no momento dialógico. A confirmação não pode ser considerada estática, pois eu confirmo o outro em sua experiência dinâmica, em suas potencialidades específicas; no presente esconde-se o que pode tornar-se.

O dialógico não deve ser equiparado com o amor. "Eu não sei de ninguém, em tempo algum, que tivesse conseguido amar a todos os homens que encontrou. Mesmo Jesus amou, manifestadamente, entre os "pecadores". somente os desprendidos, os amáveis, os que pecavam contra a lei, e não os impermeáveis, presos aos seus patrimônios, que pecavam contra ele e a sua mensagem; no entanto ele permanecia num relacionamento direto tanto com os primeiros como com os últimos. A dialógica não pode ser comparada com o amor. Mas o amor sem a dialógica, isto é, sem um verdadeiro sair-de-si-em-direção-ao-outro, sem alcançar-o-outro, sem permanecer junto-ao-outro, o amor que permanece consigo mesmo, é este que se chama Lúcifer" (Diálogo. Em Do diálogo e do dialógico,, p, 55). É no tornar-se-presente e na confirmação do outro em sua alteridade, quando cada um experiência o outro lado, nesta mútua aceitação que reside a responsabilidade do diálogo. É a responsabilidade que fará com que a relação misteriosa que acontece entre os homens deixe de ser mero jogo e contato ilusório baseado na aparência para se converter em autêntico diálogo, onde a palavra e a ação se fundam na unidade da vida vivida.

(*) Publicado originalmente em Forghieri, Y. C.(org.), Fenomenologia e Psicologia. Editora Cortez. São Paulo, 1984.


© Newton Aquiles von Zuben
Doutor em Filosofia - Université de Louvain
Professor Titular - Faculdade de Educação da UNICAMP
E-mail: navzuben@obelix.unicamp.br